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Emilio

Emilio Fagnani veio para o Brasil em 1888. Nascido em 11 de novembro de 1870 em Pescopennataro, era filho de Antonio Fagnani e de Maria Filomena Fagnani. Antes da correspondência eletrônica trocada com nossa colaboradora Erenia Terreri, sabia apenas que Emilio tinha chegado antes de 26 de setembro de 1892.(1)

Visto o sobrenome, Antonio e Maria Filomena provavelmente eram parentes, e se casaram em 22 de setembro de 1868. No livro de "Stato o Situazione della Famiglia" da Paróquia de Pescopennataro, Antonio aparecia como "stuccatore" – gesseiro, trabalhador em gesso ou argila, escultor – e Maria Filomena como "casalinga", ou dona de casa. Como se pode ver no verbete Pescopennataro, Emilio vinha de uma longa tradição de scalpellini ou muratore. A este respeito foi lançado, no dia 14 de agosto de 2003, às 17h30 (hora local), na sala do Conselho da Comuna de Pescopennataro, o livro "Scalpellini e stuccatori di Pescopennataro" de Mario Di Tullio, morador da cidade. Seu livro tem sido fonte de muitas informações utilizadas em nosso site. Scalpellini i stucattori.

Veio, portanto, com 17 anos para o Brasil, provavelmente contratado: não encontrei seu nome em nenhum registro da Hospedaria dos Imigrantes ou de navios procedentes da Itália.(2)

A saída da Itália para "far l'America" deve ter sido a convite de um parente. Em carta datada de 15 de agosto de 1904, dirigida aos pais, Emilio diz que obteve um empréstimo de Tommaso Terreri, e, como se vê na árvore de Emilio, entre os Terreri e os Fagnani havia forte parentesco.

Já no Brasil, havia um Nicolau Terreri na loja maçônica "Estrela d'Oeste" de Ribeirão Preto, cidade onde Emilio morava (na Rua da Liberdade, 7) e onde foi um dos fundadores, em 1893, da loja "Força e Justiça", que se fundiu com a "Estrela d'Oeste" em 14 de janeiro de 1904.(3) Na internet, vê-se que ainda há Terreris e Fagnanis em Campobasso. E uma senhora Terreri, com ancestrais de Pescopennataro, era casada com um Fagnani em São Paulo.

Emilio casou-se com Maria Luiza de Carvalho Sales, parente de Manuel Ferraz de Campos Sales. A habilitação matrimonial em São Carlos data de 2 de janeiro de 1895, e nela lê-se que Emilio, "com 25 anos"(4) residia em Ribeirão Preto e Maria Luíza, "com 18 anos", em São Carlos. Foram testemunhas José Luiz de Sales, Angelo Glorio e Manuel Cordini. Casaram-se em 2 de fevereiro de 1895 em São Carlos, e no registro de casamento lê-se que ele se disse "arquiteto", com 25 anos, e ela "com 17 anos". foto

Como construtor, Emilio foi responsável pela Catedral Metropolitana de São Sebastião em Ribeirão Preto, com pedra fundamental lançada em 3 de março de 1904. A bênção e o término da construção deram-se em 1920, com Emilio já falecido. Em estilo romântico e linhas góticas, destacam-se os vitrais coloridos no seu interior e os afrescos pintados em 1917 por Benedito Calixto. A catedral está localizada na Praça das Bandeiras, região central da cidade. Também ergueu, na capital do Estado, um edifício que marcou época: o Colégio Des Oiseaux, na esquina das ruas Augusta e Caio Prado. Situado em amplo terreno de quase 24.000 metros quadrados, foi uma referência na cidade até o fim dos anos 60. Fundado em 1907 pelas cônegas de Santo Agostinho, era uma das escolas de elite da capital. Obra Catedral, Obras da catedral de Ribeirão – Emilio é o 1º da esq. p/a direita ., Fachada da catedral , Interior da catedral , Capela do Des Oiseaux , Fachada do Des Oiseaux

Foi possível extrair alguns detalhes adicionais a respeito de Emilio e de seus parentes nas duas cartas autógrafas mencionadas. Na de 1904, lê-se que os sonhos de retorno à pátria estavam se esvaindo por motivos financeiros. Ele faz uma referência ao fato que o trouxe ao Brasil, que ainda não consegui determinar com precisão, bem como à sua contratação para fazer a catedral de Ribeirão Preto: "venuto qui per conto dell'Impresa, dopo um paio di mesi mi offersero la direzione dei lavori della Chiesa".

Apesar das dificuldades, Emilio prometia ajuda aos parentes: "fra breve vi rimetterò qualche cosa, che serverá per lo studio di Aminta (sua irmã) e per comprare um pò di vino della Pietra". A última correspondência da Itália ligada a Emilio de que temos notícia é uma carta enviada de Sant'Angelo del Pesco (região de Campobasso) e datada de 15 de setembro de 1961, dirigida a Durval Fagnani e assinada por "Zia Aminta" que lamenta a morte de Manuel da Silva Carneiro, marido de Filomena e genro de Emilio.

Graças a dois documentos em xerox gentilmente enviados por Gília, uma das netas de Emílio e filha de tio Edgar (a outra é Maria da Penha, ou Penhita), conseguimos mais informações sobre Emilio. A primeira consta de uma notícia de jornal de Ribeirão, com esta íntegra:

UM GRANDE ENGENHEIRO DO PASSADO - Estávamos em 1906, em princípios de julho, segundo as crônicas e os remanescentes da época. Na agência bancária do dr. Theodomiro Uchôa, achavam-se reunidos, para o trato normal de negócios, os srs. Emílio Moreno de Alagão, Vicente Lo Giudice e dr. Francisco Augusto Cesar, quando chegou uma notícia grave, que se propagou com a celeridade dos fatos alarmantes. Era o falecimento, em conseqüência da queda do animal que montava, do dr. Emílio Fagnani, engenheiro formado na Itália, arquiteto de notável valor, que se estava impondo ao nosso meio pela sua atividade fecunda, aliada a um caráter de escol. Havia inúmeras construções ligadas ao seu nome e que imprimiram à cidade [de Ribeirão Preto] outro aspecto. Mas, não era só. Porque dirigia ele a equipe de trabalho desse homem extraordinário que foi o dr. Flávio Uchôa, desbravador ousado em tantos setores e que não teve ainda o seu cronista. E, foi na qualidade de empreiteiro das obras lançadas por aquele que seria o criador da Cia. Eletro-Metalúrgica de Ribeirão Preto, que Emílio Fagnani fez a primeira pavimentação de nossas ruas, à Mac-Adam [sic]; aumentou os mananciais da Empresa de Água e Esgoto, sendo de notar que o acidente que o vitimou ocorreu justamente quando ele se achava de volta do sítio "Boa Vista", do cel. Schmidt, onde fora para estudar a captação de um veio d'água então ali existente. A Companhia de Força e Luz, adquirida pelo dr. Flávio Uchôa que aproveitou as corredeiras de Ribeirão Preto, contou também no seu desenvolvimento inicial com o trabalho e a inteligência do ilustre engenheiro italiano, que para aqui viera em princípios do século. Moço ainda, robusto, cheio de vida e de energias, que ele tanto queria, Emílio Fagnani desapareceu, deixando quatro filhos menores na época e que hoje são: dr. Edgard Fagnani, engenheiro civil; dr. Durval Fagnani, engenheiro de minas; dona Carmen Fagnani, casada com o dr. Joaquim Desidério de Matos, que, por longos anos, foi gerente da Empresa de Água e Esgoto; e dona Filomena Fagnani, viúva do dr. Manuel da Silva Carneiro, que foi promotor de nossa Comarca, orador da Sociedade Legião Brasileira [de Civismo e Cultura de Ribeirão Preto] e auditor da Força Pública do Estado.

A carta que Edgard Fagnani dirige ao sobrinho Jorge Matos data de 24 de outubro de 1967 e faz menção ao artigo acima transcrito. Diz Edgard que "em Finados, dia 2/11, será prestada singela homenagem a meu pai no cemitério de Ribeirão Preto. O Engenheiro Emilio Fagnani, falecido aos 36 anos em 1906 [sic], prestou grandes serviços à cidade, aos quais o principal jornal da terra faz agora a referência que V. poderá ler, incompleta no tocante às inúmeras obras que realizou e com alguns lapsos com referência aos filhos, porém bem intencionada e justa. Isto posto, é meu desejo ir a S. Paulo na próxima 3ª-feira 31/10 a fim de prosseguir viagem a Ribeirão com meu irmão Durval, e regressar ao Rio na 6ª-feira, dia 3."

Emilio faleceu aos 35 anos, como diz a notícia, de traumatismo abdominal em conseqüência da queda de um cavalo, em 6/7/1906, em Ribeirão Preto e foi sepultado no Cemitério da Saudade.

 

É a data de uma carta de Emilio a uma tia, a Sra. Olga Fagnani, "nata Zucchi-Castellini", redigida em São Paulo a propósito do casamento de Olga com um seu tio. A caligrafia de Emilio é preciosa, delicada, revelando seus pendores artísticos.